Como um conflito entre EUA e Irã pode afetar o Brasil (que está reduzindo o refino de petróleo)

EUA e Irã

Um ataque dos Estados Unidos (EUA, autodenominada a “maior potência do planeta”) no Iraque (país do Oriente Médio) mata o principal chefe militar do Irã (quinto maior produtor de petróleo do mundo e país vizinho do Iraque).

O que os brasileiros têm a ver com isso?

Até 2017, um acontecimento desses teria relativamente pouco impacto imediato no dia a dia da população brasileira.

Mas naquele ano, o governo de Michel Temer alterou a política de precificação da Petrobras, atrelando o preço da gasolina e do diesel ao mercado internacional (e em dólar).

O governo Bolsonaro, que assumiu em janeiro de 2019, manteve a mesma política de preços para agradar ao capital internacional.

Isso significa que, agora, qualquer acontecimento no planeta que envolva países que são grandes produtores de petróleo (como este conflito entre os EUA e o Irã) refletirá no preço do combustível que os brasileiros pagam.

Coincidentemente ou não, o ataque ocorreu apenas dois meses depois que o governo iraniano anunciou a descoberta de uma nova reserva de petróleo estimada em mais de 50 bilhões de barris. E nas últimas décadas, não faltaram guerras inventadas pelos Estados Unidos contra países produtores de petróleo…

 

O que a redução de refino no Brasil tem a ver com isso?

O governo brasileiro está aprofundando cada vez mais a estratégia de reduzir drasticamente o refino de petróleo no Brasil (assim como outras operações estratégicas) para focar apenas na extração e na venda do petróleo cru (que é o que mais interessa ao capital internacional).

Isso faz com que o governo venda o petróleo cru (barato) e importe os derivados (muito mais caros).

Mas além de ir na contramão dos países emergentes (como China e Índia, que estão focando cada vez mais na ampliação do refino), o Brasil vai ficar cada vez mais refém do cenário geopolítico mundial.

Para agradar o capital internacional, o governo coloca essa conta no bolso do brasileiro.

 

Quais os riscos na prática?

O Irã fica localizado na região conhecida como Oriente Médio. Ali estão muitos outros países exportadores de petróleo que são banhados pelo Golfo Pérsico (um braço do mar de onde saem os navios da Arábia Saudita, Iraque, Irã, Kuwait, Bahrein, Catar e Emirados Árabes Unidos).

Para sair do Golfo Pérsico em direção ao oceano, as embarcações precisam passar por uma faixa reduzida de água chamada de Estreito de Ormuz, que é controlada pelo Irã.

A Petrobras divulgou recentemente que interrompeu o tráfego de petroleiros pelo estreito de Ormuz. A estatal garantiu que a mudança não trará qualquer impacto no abastecimento de combustível em território brasileiro.

Porém, o Oriente Médio é um importante fornecedor de óleo bruto leve para ser misturado ao óleo cru pesado nacional nas refinarias brasileiras.

De acordo com dados do Ministério da Economia, em 2019, 38% das importações de óleo cru vieram do Iraque e da Arábia Saudita (único país que ainda tem a opção de enviar navios pelo Mar Vermelho, que fica do lado oposto ao Golfo).

Mesmo tendo na Argélia o principal exportador de óleo cru para o Brasil (eles não exportam sua produção pelo estreito de Ormuz), num cenário de guerra, o Brasil teria que ampliar suas alternativas de fornecedores (por exemplo: usar costa africana), além de se ver obrigado a reduzir suas exportações de óleo cru.

Uma coisa é certa: em caso de guerra com os Estados Unidos, o Irã poderá fazer a obstrução do estreito de Ormuz e as importações brasileiras de derivados serão fortemente afetadas.

Pensando nessa real possibilidade, não seria fundamental o Brasil seguir o exemplo das grandes nações produtoras de petróleo e fortalecer seu parque de refino para se tornar cada vez mais autônomo?

A atual política de desinvestimento da Petrobras, priorizando importação de derivados, pode deixar o país desabastecido mesmo tendo petróleo, pois as grandes refinarias nacionais estarão cada vez mais ociosas.

Pior ainda se o governo levar a cabo sua intenção de privatizar as refinarias da Petrobras.

Isso seria um verdadeiro desastre.

 

Veja também Foco do governo no curto prazo coloca a Petrobras em risco (e o Brasil também)

Como um conflito entre EUA e Irã pode afetar o Brasil

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